Wednesday, May 25, 2011

A ÁGUA DA PANELINHA


Em Cruz Alta meus pais se casaram e por lá moraram por três anos e pouco, tempo suficiente para me verem nascer, abrir os olhos, tomar meu primeiro banho e apagar minha primeira velinha. Antes que eu completasse dois anos, nos mudamos para Palmitos, em Santa Catarina, e depois Iraí, no norte rio-grandense. Porém, minha memória só começou a formar-se já em Porto Alegre, onde vivi até os 12 anos de idade, antes de rumarmos a Bagé. Obviamente, portanto, desse ano e pouco de vida nada lembro da minha terra natal.

a primeira velinha

No entanto, foi nesse chão, onde todos os anos eu passava as férias, que colecionei as melhores recordações da infância. Na terra da Panelinha, fonte encantada, eu pude andar descalço, subir nas árvores e nos telhados, jogar futebol na chuva, colher ameixa, pitanga e bergamota no pé, quebrar todas as vidraças do vizinho e fazer todo tipo de travessura que até hoje me orgulho em relatar.

Desde a capital, a longa viagem era feita num Chevette bege 76, de quatro marchas, a 80 quilômetros por hora. Era uma jornada cansativa, em que a cada minuto aumentava a ansiedade da chegada, geralmente a tempo de tomar o café da tarde. De repente, porém, se transformava em pura alegria e entusiasmo no momento em que avistava, da estrada que cortava um imenso mar de trigo e soja, os altos silos brancos na entrada da cidade.

Naquela idade tenra, os dias em que visitava Cruz Alta pareciam meses, tamanha a quantidade de experiências novas, amizades e alegrias que colecionava a cada temporada. Os churrascos de uma picanha inesquecível assada pelo Ito, a torta de fios de ovos da Ita e os bolinhos de chuva da Vovó eram parte da rotina de férias. A cada ano, mais histórias de invasores e ladrões que a Laika mordera até arrancar pedaços, cadela policial que trucidou ao todo 22 gatos. Ainda hoje chamo de mano meu primo Marcelo, talvez a inspiração para o meu nascimento, por ser exatos 9 meses mais velho. No futebol, a dupla que formávamos, sem mentira, continua invicta até hoje. Não sei se foi pelo talento nato ou simplesmente fruto da magia do fardamento completo do Internacional. Enfim, assunto para outro texto.

daí não pode sair coisa boa...

Na terra de Érico Veríssimo, obtive não apenas meu primeiro suspiro. Cruz Alta também foi o cenário da primeira estrela cadente, noite na barraca, canoa no açude, soco na cara, bodoque, bicicleta, pouso de avião, carnaval d'água e... bueno, acho melhor eu ir parando por aqui. Não tinha dia em que não saísse um caldo espesso no banho, como um troféu a tantas andanças, correria, esporte, brincadeira e até invasão a propriedade. Enfim, anos que a água da Panelinha fez jus à lenda e sempre me fazia voltar.

No entanto, em um dado momento, minhas idas à cidade se tornaram menos frequentes. Talvez o fato de, aos 14 anos, voltar a morar em Porto Alegre, dessa vez sozinho, e acabar curtindo as férias com minha própria família em Bagé e depois em Cachoeira do Sul; não sei se isso foi causado por alguma perda de encantamento, por pessimismo, vacas magras ou traumas adolescentes, mas Cruz Alta se transformou, no máximo, em um local de visitas rápidas e escassas.

a magia do fardamento completo

Atualmente, há mais de 11 anos morando nos Estados Unidos, o prazer de encontrar meus tios e primos acaba tendo como cenário Porto Alegre ou Cachoeira do Sul, onde meus pais continuam vivendo. É um contato rápido, em que não dá tempo nem de contar os causos, de falar da vida, de trocar ideias, de saber mais. Os churrascos ainda são deliciosos, a casa fica cheia, há sons em todas as peças e, claro, ainda há muito riso. O último deles ocorre para maquiar a tristeza da despedida, na hora em que os Mesquita estão indo embora e, como sempre, não conseguem encontrar a chave do carro. Mas Cruz Alta, a minha terra natal, a terra da minha infância querida que os anos não trazem mais, está longe, também distante no tempo e na memória.

Hoje meu tio Beto, também cruzaltense, me enviou o link de um vídeo homenageando a cidade ao som do hino que tanto cantei: "E de um chão cheio de vida / nasceu uma terra querida / Cruz Alta dos trigais..." Foi impossível não marejar os olhos, uma nostalgia completa me encheu o peito e, assim, decidi dedicar a primeira entrada deste blog à minha terra, como quem tenta pagar uma dívida. Talvez na esperança de pedir perdão a ela e a meus tios e primos queridos, por eu, mais do que ninguém, ser o maior responsável pelos anos sem visitar a Capital do Trigo.

Eu sei que isso é apenas fruto da vida. As coisas mudam, ao longo do caminho encontramos outras estradas, corremos atrás dos sonhos, queremos ganhar o mundo. Mas mesmo com tanta estrada nova em minha vida, anseio poder flutuar novamente de alegria em meio ao trigo e o soja até avistar, lá longe, pequeninha, a pontinha dos silos que ainda hoje imagino serem o primeiro sinal de que, em pouco tempo, estarei novamente bebendo a água da Panelinha. E que esta água continue sempre me fazendo voltar ao ponto onde aterrissei neste planeta... Que me faça, sempre, sentir gratidão a essa terra, de onde peguei a primeira das incontáveis estradas por que passei.

Eduardo do Canto Machado

7 comments:

  1. Lindo Dudu, muito bom lembrar e escrever sobre nossa infância, gostei, vou te seguir...bj da prima.

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  2. Dudu, gostei muito. Até porque também faço parte desta história.

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  3. It was about time! Amigo véio, velho companheiro de labuta, te felicito pela iniciativa. Mas cuidado: é vício! beijos grandes, Tanira

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  4. Delícia de texto. As fotos belas, alegria presente. Muito bom quando reconstruímos nossa memória e colocamos mais foco no que há de melhor... parabéns. Com carinho Márcia

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  5. Deborah, que bom que gostaste. Caçapava do Sul também merece um texto!
    Tio Beto, obrigado pela inspiração!
    Tanira... Pois é, demorou mas saiu. Pode ser um vício, mas faz bem, né?
    Márcia, não sei se o teu "Canto" já passou por Cruz Alta... É de lá que vem o meu! Acho que dele vem nossa sensibilidade, pode ser? Com toda certeza, ainda vai render um texto.
    Obrigado a todos pelo carinho!

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  6. Lindo demais, Edu! Bora escrever mais que já estou seguindo! Assim tb amenizo a saudade! beijos

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